Desde a década de 1980, o surgimento e a expansão da epidemia do HIV/Aids é considerado um tema preocupante. Mesmo com os avanços no tratamento e o aumento da expectativa de vida dos portadores, existem ainda diversas implicações envolvidas na infecção e seu processo evolutivo que necessitam de maiores aprofundamentos. Uma dessas implicações é a associação dos impactos da doença com os transtornos mentais. Observa-se que os transtornos psiquiátricos são comuns nos portadores do HIV e não necessariamente por condições pré-existentes. Dentre esses transtornos, os mais relacionados são a depressão e a ansiedade. Para os sintomas frequentes, alguns estudos mencionaram a culpa, a irritabilidade, a sensação eminente de morte, a fadiga, a sensação de perda de controle, o isolamento, a perda de peso, o desconforto abdominal, a impulsividade, a sensação de calor, o medo que aconteça o pior, a incapacidade de relaxar e as alterações no sono (Malbergier e Schoffel, 2001). No entanto, observa-se uma problemática na mensuração e avaliação desses quadros psiquiátricos e seus sintomas. Malbergier e Schoffel (2001) consideram que o vírus produz mudanças em estruturas nos gânglios de base, tálamo e lobo frontal e isso provocaria transtornos da motivação e do humor. Desta maneira, o aparecimento de sintomas são devido a condições neurológicas. Para, além disso, as doenças oportunistas, a deteriorização do sistema imunológico e o uso de substâncias durante o tratamento provocam uma série de desconfortos físicos, semelhantes aos sintomas encontrados em quadros de depressão e ansiedade. Essa constatação foi mencionada na pesquisa de Kalichman, Rompa e Cage (2000) na comparação entre instrumentos de avaliação. Eles sugeriram que alguns instrumentos aumentaram os escores em pacientes portadores do HIV por incluírem sintomas somáticos. Para buscar a associação entre a progressão da doença com a depressão e ansiedade, boa parte dos estudos utilizaram a contagem de linfócitos T-CD4 e associaram esse resultado com instrumentos de medidas psicológicas, diagnósticos, entre outras formas avaliativas. Essas pesquisas mencionaram uma relação significativa entre a depressão e ansiedade com as medidas do sistema imunológico (Burack, Barrett et al., 1993; Zena-Castillo, Mezones-Holguin et al., 2009). Entretanto, apesar dessa evidente associação, os resultados ainda são mistos e necessitam de maiores esclarecimentos, principalmente quanto à metodologia empregada.  Para contribuir com a perspectiva mencionada das implicações do processo evolutivo da doença e estudar a associação entre seus impactos com os transtornos psiquiátricos, este estudo teve como objetivo avaliar os graus de depressão e a ansiedade em pacientes hospitalizados portadores de HIV/Aids e buscar associação desses graus com o nível de linfócitos T-CD4.  Com a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa, a coleta foi realizada em um Hospital de Infectologia em São Paulo. Para a composição da amostra, os pacientes foram selecionados conforme entrada na internação das unidades. Não fizeram parte desta pesquisa os pacientes com alterações psiquiátricas, alterações neurológicas e com déficits cognitivos, segundo informações de entrada. Compuseram a amostra 46 pacientes portadores de HIV/AIDS, internados em um Hospital de Infectologia em São Paulo. Destes 65,2% eram homens e 34,8 mulheres, com média de idade de 38 anos (DP=8,96; Min=21; Max=59). O estado civil correspondeu em 41,3% solteiros, 30,4% casados, 19,6% separados e 8,7% viúvos. A escolaridade predominante permaneceu em ensino fundamental incompleto a médio completo em 84,8% dos casos. Foi aplicada nesses sujeitos a seguinte sequencia de instrumentos, Questionário Sociodemográfico, Inventário de Depressão de Beck – BDI e Inventário de Ansiedade de Beck – BAI. A aplicação foi realizada individualmente, em local apropriado com os cumprimentos éticos exigidos em pesquisa e teve duração média de trinta minutos. A Ficha de Pesquisa, elaborada para coleta das condições clínicas do indivíduo, foi preenchida pelo pesquisador, segundo informações no prontuário. Em casos de dados não localizados, visitas foram realizadas no laboratório da instituição para o preenchimento dos resultados faltantes. Para os resultados, observaram-se graus moderados de sintomatologia de depressão e ansiedade na a amostra, quando avaliado pelas médias nos escores dos instrumentos BDI e BAI. Ao classificar os escores nos instrumentos, segundo os pontos de corte, 57% da amostra masculina permaneceu abaixo do moderado para os sintomas de depressão, enquanto 69% da feminina permaneceram do moderado ao grave. Mesmo sem tendência estatística quanto ao grau de depressão na amostra, esse resultado corroborou as prevalências de uma maior existência de depressão em mulheres. Além disso, a prevalência nas mulheres com HIV pareceu ser superior àquela encontrada nos homens, conforme pesquisas mencionadas na literatura. A mesma tendência também ocorreu para a ansiedade, 57% dos homens permaneceram abaixo do moderado e 56% das mulheres permaneceram em grau sintomatológico grave de ansiedade. Esses dados também corroboraram as prevalências da ansiedade em mulheres, superiores aos homens. Como a maior parte dos pacientes mantiveram contagens de T-CD4 abaixo de 200/mm³, condição regular devido ao local de coleta dos dados, a distribuição das classificações de T-CD4 ficou prejudicada quando associada aos graus de depressão e ansiedade. Os dados sugeriram uma não associação entre a classificação T-CD4 com os graus de sintomatologia da depressão e ansiedade para homens ou mulheres. Mesmo ao avaliar somente um segmento dessa classificação, a exemplo à mínima (<200/mm), a distribuição sintomatológica dividiu-se em diferentes graus. Esse resultado foi contrário aos estudos que reforçam a associação entre o nível de linfócitos T-CD4 com os sintomas de depressão e ansiedade, a exemplo, o estudo recente de Zena-Castillo, Mezones-Holguin et al. (2009). Mesmo com evidências consideráveis de que as medidas de imunidade celular são alteradas em indivíduos com depressão, ansiedade ou estresse, em não portadores do HIV, considera-se que para os portadores os resultados têm sido mistos. Neste estudo, a não associação encontrada indicou essa direção. Embora, vários outros estudos têm encontrado uma relação significativa entre a depressão/ansiedade e as medidas do sistema imunológico (Burack, Barrett et al., 1993; Malbergier e Schoffel, 2001), pondera-se que tais diferenças nos resultados podem ser parcialmente atribuídas às diferenças metodológicas, tais como a forma de mensuração, o período de acompanhamento, as diferenças imunológicas analisadas, entre outras. Essa discussão reforça ainda mais a necessidade de uma melhor compressão da forma como a depressão ou ansiedade podem influenciar na progressão da doença e a mortalidade. Assim como neste estudo, a maioria dos outros na literatura focou os efeitos sobre a imunidade na infecção pelo HIV nas populações de T-CD4, utilizando um período curto de observação. Já para a associação encontrada entre a sintomatologia da depressão com a ansiedade, ela foi mencionada também em pesquisas de pacientes infectados pelo HIV a exemplo, a compilação feita por Owe-Larsson, Sall, Salamon, e Allgulander (2009). Trata-se de um resultado esperado, em primeiro lugar, pelas altas taxas de prevalências de depressão e ansiedade nesses pacientes. Em segundo, devido à complexa associação entre essas sintomatologias. Finalmente, há muito ainda o que se compreender sobre a infecção pelo HIV. Especialmente sobre os impactos psicológicos acarretados pela doença e suas associações. Neste estudo em questão, a prevalência dos sintomas de depressão e ansiedade, principalmente nas mulheres, a não associação entre a classificação T-CD4 com os graus de sintomatologia, além da associação entre essas sintomatologias, necessitam de maiores esclarecimentos. Apesar das diversas estratégias diagnósticas e instrumentos de medida disponíveis, sugere-se para os futuros estudos a construção de ferramentas de rastreamento simplificadas, especialmente concebidas para a população infectada pelo HIV, considerando também o gênero. Uma vez que o uso de substâncias é frequente e alguns dos sintomas da doença sobrepõem sintomas de depressão e ansiedade, o desenvolvimento desse tipo de instrumental seria capaz de distinguir confiavelmente e orientar a condução do tratamento de maneira específica no momento do diagnóstico.

 

Título:  Avaliação da depressão e ansiedade em HIV/Aids: implicações nos linfócitos T-CD4

Autores: Ítor Finotelli Jr.; Cláudio Garcia Capitão; Cristiane Santos de Macena

Palavras-Chave: depressão; ansiedade; pacientes portadores de HIV/AIDS; linfócitos; T-CD4

Categoria: Trabalhos publicados em eventos científicos

 

Referência: Finotelli Jr., I., Capitão, C. G., & Macena, C. S. (2011). Avaliação da depressão e ansiedade em HIV/Aids: implicações nos linfócitos T-CD4. Trabalho apresentado no XIII Congresso Brasileiro de Sexualidade Humana. Londrina. Anais do XIII Congresso Brasileiro de Sexualidade Humana, Londrina.


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