Ao falar sobre pornografia, a maioria das pessoas se envergonha e diz não gostar, ou admite apreciar apenas as produções mais "light", especialmente as mulheres. Mas qual o motivo do encabulamento, afinal? Para Ítor Finotelli, psicoterapeuta sexual, o que conhecemos como pornografia teve suas origens no movimento da Contra-Reforma. "Neste momento histórico, a Igreja Católica formulava ações para o controle de seus fiéis, sendo uma delas a criação de mecanismos para distinção entre aquilo que é ou não aceitável. O que não era tolerado se enquadrava como pornográfico, e o aceito era chamado de artístico ou erótico. Pinturas que continham expressões sexuais como nudez, beijos ou carícias preocupavam a Igreja, devido aos conteúdos que valorizavam a carne e confrontavam os valores pregados", ele explica.

 

Pornografia moderna
Ao longo do tempo, a definição de pornografia sofreu alterações. "Cabe ressaltar algumas diferenças entre o pornográfico de hoje e o de ontem. A primeira é que este gênero de expressão tornou-se um produto mercadológico; a segunda, que as influências temporais e sociais alteraram os conteúdos pornográficos e, devido ao mundo globalizado, a expressão pornográfica está cada vez mais homogênea; e a terceira, que a quantidade de fontes existentes aumentou, sendo a Internet hoje a principal delas", conclui Finotelli.

 

E na prática, como é?

Ana* tem 24 anos e há seis é atriz de filmes pornô. Entrou nesse ramo por mera curiosidade, quando um amigo que fazia seleção para uma produtora insistiu na proposta. Apesar do primeiro filme nunca ter sido lançado, hoje em dia Ana é um nome de destaque na área e já chegou a fazer sete trabalhos num único dia. "Um bom banho, ducha anal, perfume, óleo corporal e confesso que tomo Dorflex antes, para aguentar as dores e os malabarismos", revela.

 

Lembrando de sua carreira, Ana ri dos acidentes em cena: "Ixi! Já saiu pancadaria, já aconteceu de vomitar no pênis do amigo, já tomei tombo... de tudo um pouco. Certa vez, gravando no alto de um penhasco, o ator deu uma pegada tão forte por trás que rolei feito uma bola de boliche indo para os pinos que, no caso, eram as árvores lá em baixo... Essa foi dose".

 

Para Ana, as produções brasileiras estão bem atrás das americanas. "Produções brasileiras são piores. Sem texto elaborado, é tudo criado na hora, às vezes nem maquiador e cabeleireiro aparecem e nós mesmas nos arrumamos... A indústria está falindo. A pirataria detonou! Agora é tudo pela Internet", conta. Apesar disso, 400 títulos são lançados todo ano no Brasil, gerando uma renda de R$ 200 milhões.

Muitas pessoas se perguntam como entrar nesse ramo. "Nem existe teste, se for bonita, desinibida e tiver a cabeça aberta já está dentro! Mas eu dou um conselho: se entrar, tem que entrar para valer. Se for para fazer um filme só e depois parar, melhor nem entrar", diz Ana.

 

Mas, afinal, o que motiva homens e mulheres a fazer frente às câmeras algo que a maioria das pessoas nem pensa em fazer fora de quatro paredes? A resposta é simples: dinheiro. O cachê que recebem é a maior motivação, já que muitas vezes os atores não sentem prazer de verdade. "Eu conto no dedo quantas vezes senti prazer. É muito difícil", revela Ana.

 

A atriz pornô que prefere se identificar somente como Bruna* concorda. "Não dá para sentir prazer com tantas pessoas em volta", ela diz. Quem trabalha no ramo também não vê mais graça em assistir às produções do gênero. Joice* diz não gostar de consumir pornografia, nem assiste aos filmes em que atua. "Nunca assisti e nem quero! Não gosto de me ver, ponho muito defeito... Coisas de mulher, sabe? Meu Deus, aquilo é uma celulite?!", faz graça. "Sinceramente, nunca vi um filme pornô inteiro, só pedacinhos. E agora que não vejo mesmo, pois sei como é feito, perdeu a graça!", completa.

 

Vida normal

Apesar do reconhecimento nas ruas, as atrizes levam uma vida normal. Bruna cuida do filho, da casa, vai ao mercado. Ana não dispensa uma pausa na cafeteria próxima à academia: "Como não trabalho como a maioria, em horário comercial, tenho o dia livre para resolver minhas pendências, passear, fazer outros trabalhos... Se não gravo no dia, só faço show à noite".

 

Atores e atrizes pornô geralmente têm receio de sofrer preconceito, pois fazer esse tipo de filme não é encarado como profissão. A opinião dos amigos e da família é a que mais preocupa no começo da carreira. Bruna, que começou no ramo há seis meses, diz: "Nem todos da família sabem. Alguns preferem fazer de conta que não sabem, outros não gostam, mas nada fora do esperado". Bruna, além de fazer filmes, é mãe de um menino de quatro anos e ainda administra uma república de mulheres.

 

Já Ana diz não ter problemas com isso nem nunca ter sofrido preconceito: "Não na minha frente, pelo menos. Agora o que falam por trás... Não estou nem aí". A família nunca se intrometeu, inclusive dá conselhos, respeitando as decisões de Ana. Já os amigos, a atriz diz que os poucos que ousaram criticá-la nem foram ouvidos: "Aceita-me ou esqueça-me, comigo é assim porque ninguém paga as minhas contas. Amigo mesmo é dinheiro no bolso", ela resume.

 

Ana, que além de atriz é dançarina e modelo, já sofreu, mesmo, é com o ciúme do companheiro. Noiva há quatro anos, no começo ela escondia sua profissão do parceiro. "Não teve jeito, sempre tem um conhecido que viu um filme seu e corre para contar... Depois de tudo conversado, resolvemos ficar juntos, estamos firmes e ele já foi até em programa de TV comigo falar sobre isso. Mas o começo foi bem difícil mesmo. Entendo o lado dele e sei que vai para o céu por aguentar", conta a atriz. Com o tempo, o noivo aceitou e hoje conhece várias pessoas do meio, colegas da noiva.

 

E do lado de cá...

E quanto a quem assiste? Dá para se excitar de verdade? O trabalho dessas atrizes e atores é mesmo válido? É claro que isso depende do gosto sexual de cada um. Segundo o psicoterapeuta, "um rapaz homossexual não sentirá atração ao ver um filme pornográfico heterossexual, e o mesmo acontecerá com o inverso. Também não são todos os homens que gostam de filmes com mulheres mais novas (ninfetas). Tem quem escolha o filme pelo produtor, pela nacionalidade, pelas posições sexuais que traz, pelos atores, por algum fetiche apresentado (roupas de couro, chicote etc.) e por aí vai".

 

E o que define se excitar ou não vai além. Depende de como a pessoa aceita a pornografia. "Algumas pessoas não se excitarão por não aceitarem moral, religiosa ou politicamente esse tipo de manifestação. Outras, por nunca terem experimentado e se chocarem. Outras ainda podem achar excitante ou não dependendo de seu estado de humor no dia", completa ele.

 

A psicóloga clínica Malka Reyzla Scharff também acredita que é determinante a relação do espectador com

sua sexualidade. "Temos que levar em conta sentimentos como culpa, medo, nojo, entre outros que, por diversos fatores socioculturais estão vinculados, ainda hoje, ao sexo", explica. Malka alerta que muitas pessoas não conseguem se imaginar nas situações exibidas nos filmes e muito menos se excitarem. "O fato de alguns perceberem a pornografia como um produto pode ser tanto estimulante como brochante. Algumas pessoas conseguem perceber técnica, edição, montagem, enfim, uma série de artificialidades nas cenas, o que faz com que o filme seja encarado como uma farsa se distanciando assim de seu objetivo de despertar desejo", ela afirma.

 

E por falar em artificialidade, os corpos absurdamente sarados dos atores e suas cenas picantes, ao invés de estimular, podem mesmo acabar com o tesão. Isso porque não soa verdadeiro. As cenas são montadas e o casal que assiste em casa pode se frustrar ao não conseguir reproduzir as posições e realizar as fantasias propostas pelo filme.

 

Para Malka, basta o casal ter maturidade suficiente para não comparar o próprio desempenho e atributos físicos aos dos atores. O psicoterapeuta Ítor Finotelli aponta vantagens para homens e mulheres que assistem: "Ambos conhecerão mais sobre suas fantasias, gostos e preferências. A comunicação do casal poderá também melhorar, assim como o repertório sexual", resume. A atriz Ana concorda que o filme pode ajudar no desempenho sexual do casal. "Os parceiros descobrem
novas posições, preferências e fantasias", ela diz.

 

Os contras

Que assistir filme pornô não dá espinha nem faz crescer pelo na mão a gente já sabe, mas será que traz, de fato, algum dano? "Um dos principais malefícios é quando o casal só consegue ter atividades sexuais com o uso desse recurso" diz o psicoterapeuta. Para a psicóloga, "o problema é quando o filme vira um roteiro para o casal e, assim, ao invés de contribuir para o estímulo da imaginação, acaba aprisionando".

 

Ou seja: nada de tornar o filme uma obrigação preliminar. Ele deve ser apenas mais um objeto para estimular o sexo e levar o casal para a cama. A medida é assistir para dar aquela apimentada, mas sem tornar vício. Como? Primeiro, acabar com a ideia de que somente homens possam se excitar assistindo a filmes pornôs.

"A sexualidade feminina, de modo geral, ainda é encarada com muitos tabus. Sabemos pouco sobre o desejo feminino. Porém, compreendemos que as mulheres ocupam o lugar de desejo dos homens e se moldam conforme este desejo. As meninas, de forma acrítica, ensinadas pelas mães desde muito cedo, já aprendem como se fazer desejar. Mas as vontades femininas vão além disso, e devido à culpa que as questões religiosas nos colocam, elas se envergonham deste sentimento e sensações vivenciadas. Assim, assistir ao filme, como qualquer outro meio que estimule um prazer intenso e desconhecido, não é algo bem aceito", diz Malka Reyzla Scharff.

 

Para Ítor Finotelli, algumas mulheres deixam de experimentar por causa do preconceito ou imaginam que exista um único gênero ou material. "Ainda há muita vergonha e/ou repressão. Enquanto quase sempre existiu espaço para a expressão sexual do homem, a da mulher ocorreu de trinta anos para cá, então, assim como qualquer preconceito, mito ou falsa crença, demorará a desaparecer", ele analisa.

 

E o ciúme, como fica? A psicóloga enfatiza a importância de não se encarar o filme pornô como uma forma de traição. "Algumas mulheres encaram como traição o mero fato de o parceiro fantasiar uma situação sexual com outra pessoa", diz Malka. Segundo o psicoterapeuta, "seria uma invasão da individualidade a parceira proibir o uso desse tipo de material. Isso pode ocasionar problemas: é o mesmo que proibir o namorado de sair com os amigos. É preciso mencionar que o desejo sexual funciona a todo instante e o outro até poderia censurar a compra desse tipo de filme por ciúme, mas não teria como controlar as fantasias, a imaginação e nem as situações excitantes a que todos são expostos no cotidiano".

 

Ana comenta que muitas mulheres lhe pedem para ensinar truques para usarem com seus homens. "Mas eu digo que tem que assistir e deixar rolar o que vier na mente, sem seguir cartilha. E quando eu conto a verdade, elas costumam odiar, mas nem eu faço com meu noivo aquelas coisas todas que faço em cena! É impossível gostar daquelas posições dolorosas!", revela.


Título: Luz, câmera, pornografia
Autores: Mariana Galante
Palavras-Chave: pornografia; expressão sexual; práticas sexuais; preconceito; excitação; erotismo; filme pornô; fantasias; gostos; preferências
Categoria: Trabalhos técnicos: Entrevista para Revista 7 Dias com Você
Fonte: Revista 7 Dias


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