O psicoterapeuta sexual Ítor Finotelli Jr, que atua em Campinas, já acompanhou diversos casos em que as pessoas questionavam a própria orientação sexual e tentavam descobrir se eram bissexuais, geralmente por sentirem prazer com determinadas práticas sexuais que podem ser consideradas "diferentes" ou relacionadas aos homossexuais ou bissexuais. Dúvidas, preconceitos e definições erradas dificultam no entendimento da bissexualidade, podendo gerar conflitos internos até para o próprio bissexual e seu companheiro (sexual ou marital).

 

Quando se fala de sexualidade é necessário entender que não existem regras definidas ou conceitos que não podem ser alterados, já que a própria sociedade transforma-se com o tempo. Segundo o psicoterapeuta, entre quatro paredes não há limites para a imaginação, seja hétero, bissexual ou homossexual. O importante é ter satisfação e alegria com a própria sexualidade.

 

Qual a definição mais correta de bissexualidade?
O bissexual é a pessoa que sente atração, tem desejos e estabelece vontades sexuais com ambos os sexos. Ao longo de nossas vidas mantemos relações com diversas pessoas, de ambos os sexos, e criamos sentimentos de empatia com elas, mas isso não caracteriza a bissexualidade, já que essas relações não apresentam, necessariamente, um envolvimento sexual. Devemos relacionar, inicialmente, a bissexualidade ao desejo sexual, não a uma relação conjulgal. Separar desejo do relacionamento conjulgal é importante para entender didaticamente esse conceito e não cair em questões culturais e imposições sociais.

 

Os bissexuais sentem uma atração igual pelos dois sexos ou há uma predominância?
Nessa questão não existe uma regra definida. Dentro da bissexualidade temos um segmento mais específico que são os ambissexuais, pessoas que não estabelecem uma preferência entre os sexos.

 

Dentro das prisões, alguns presos têm relacionamentos homossexuais durante um período e depois voltam ao relacionamento heterossexual. Isso pode ser considerado um tipo de bissexualidade?
Esta pessoa pode não ser bissexual necessariamente. Situações de clausura ou de contenção são fatores importantes quando se aborda a bissexualidade. Em guerras, por exemplo, as pessoas ficam longe de seus parceiros e podem manter contatos bissexuais ocasionais. No caso de presos, eles estão enclausurados e acabam não tendo outras opções, alguns não têm visitas íntimas e, muitas vezes, mantém relacionamentos com o mesmo sexo como forma até de alidarem com a situação de clausura. Historicamente, há casos de padres que ficavam enclausurados por fatores religiosos e tinham relações homossexuais. Nestes casos, a pessoa pode ter tido uma relação bissexual naquela situação específica, mas não pode ser considerada bissexual, já que não tem atração pelos dois sexos.

 

Muitas pessoas declaram terem vivido experiências bissexuais apenas na adolescência. Há algum motivo determinante?
Na adolescência, a identidade sexual ainda não está formada, por isso, é mais comum que ocorram experiências nesse período, como uma forma de desenvolvimento e descoberta da própria sexualidade. Isso não significa que esses jovens são bissexuais, já que eles podem não prosseguir com esse comportamento na vida adulta. Na verdade, existe o mito que se uma pessoa teve alguma relação com alguém do mesmo sexo ela é homossexual, ou bissexual, mas isso não é verdade. Pode ter sido uma prática isolada e não corresponder a orientação da pessoa.

 

Um bissexual é visto com alguém indeciso ou promíscuo por parte da sociedade. A pessoa bissexual tem sua orientação bem definida?
O bissexual não é indeciso ou promíscuo, esses adjetivos, na verdade,revelam o preconceito que essas pessoas enfretam. Algumas vezes, o próprio parceiro do bissexual pode questionar essa situação e não entender o companheiro. No relacionamento com um bissexual existem certas incertezas, do tipo "será que ele está satisfeito?", "será que eu dou conta?". Os bissexuais podem, sim, ter um relacionamento monogâmico, com um parceiro sexual e marital sendo a mesma pessoa. O que conta é a questão da confiança e tipo relação que o casal tem.

 

Qual a relevância dos estudos de Kinsey na área da sexualidade? Esse estudos ainda são atuais?
Kinsey foi um pioneiro, não há dúvida! Ele era um biólogo que por uma questão de demanda respondeu diversas dúvidas sobre a sexualidade humana. Estes estudos chocaram a sociedade americana da época, já que abordavam temas como a masturbação e a bissexualidade. Hoje os conceitos de Kinsey podem ser considerados limitados, já que tratavam das orientações sexuais com questões restristas, que na realidade são multidimensionais.

 

Algumas pesquisas dizem que futuramente haverá uma maioria bissexual. Isso é um erro?
Sinceramente, não sei o que será daqui para frente. Acredito que teremos uma expressão sexual sem tantas restrições sociais e religiosas. Na verdade, a realidade futura não pode ser imaginada com conceitos do passado ou do presente, já que seria uma visão muito restrita. Seremos diferente, isso não há dúvida, já até vemos essa mudança com os papéis sociais de homens e mulheres cada vez mais mesclados, mas isso não dá para dizer que seremos bissexuais.

Título: O que é bissexualidade?
Autores: Felipe Guines
Palavras-Chave: bissexualidade; heterossexualidade; homossexualidade; preferência sexual; orientação sexual; desejo sexual; parceria sexual; identidade sexual
Categoria: Trabalhos técnicos: Entrevista para o Jornal Tod@s
Fonte: Jornal Tod@s


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